A Tradição Oral do Conhecimento Indiano

Nenhuma história definitiva da Jyotsha provavelmente será escrita, pois suas origens históricas estão completamente perdidas na antiguidade, sendo seus registros, as próprias vidas dos que já se foram. Alguns sustentam que a Jyotisha é uma dispensação divina – um dos dons de Deus a humanidade – que foi revelado para nós através de sábios indianos; outros enxergam como uma mistura de empréstimos (pedaços de conhecimentos) das outras civilizações, que se influenciaram mutuamente ou através de um furto cultural astuto. Nós devemos enxergar a Jyotisha como um conjunto de conhecimento em desenvolvimento, uma astronomia anciã que absorveu ideias de diferentes culturas.

Alguns autores atribuem a notável ausência de escritos Jyotish devido a conquista grega de partes no norte da Índia. Pesquisadores contemporâneos, sendo desconfiados de transmissões orais de conhecimento, procuram por registros escritos de uma cultura, acreditando que história oral se deteriora em mitos e lendas, e isso por si só não seja fidedigno ao que o povo entendia da realidade. A possibilidade também existe de que esse conhecimento místico e lendário foi usado pelos antigos para transmitir informação de uma geração a outra. Aqueles de nós que acreditam na escrita ser superior a oralidade devem considerar o seguinte, dito por Thamus, o faraó do Egito, ao deus Tot, que estava se vangloriando de ter criado o alfabeto: “essa invenção produzirá esquecimento na mente daqueles que aprenderem a usa-lo, pois eles não praticarão a memória ao delegar o registro a escrita. A sua convicção na escrita, produzida por características externas as quais não são partes deles mesmos, desencorajarão o uso da sua própria memória. A especificidade com a qual você tem descoberto é uma ajuda não a memória, mas a reminiscência, e você dá aos seus discípulos não a verdade, mas apenas o semblante de verdade.”
É claro que a escrita foi um avanço tecnológico extremo na humanidade, mas seu uso possui também essas consequências dadas pelo conto egípcio.

A palavra escrita foi uma reflexão tardia, não ideal, para muitas civilizações. Na Índia, autoridades tradicionais afirmam que a posse de conhecimento sagrado registrado só era passado em forma escrita quando não eram encontrados discípulos capazes de transmiti-lo corretamente, pois o conhecimento é poderoso e valioso demais para cair em mãos erradas. E também porque os indianos possuíam um forte sistema hierárquico tradicional e conservador, mas com razão. Esse treinamento tradicional na cultura indiana permanece até os dias de hoje com a transmissão via oral através de memorização, recitação prosódica e debates. Até recentemente, todos os estudantes eram treinados a desenvolver memórias poderosas, e na Índia moderna sábios ainda realizam feitos prodigiosos de recordação, efetivamente recitando capítulo após capítulo da obra que abrange suas tradições clássicas, incluindo a Jyotisha.

Os que acreditam num progresso linear da civilização, possuem uma tendência inata para a leitura silenciosa, um desenvolvimento evolucionário que é muito mais recente que a escrita. Pertencemos a um pós-modernismo que adora uma boa embalagem (aparência), e isso nos dificulta a entender que conhecimento já foi transmitido oralmente de geração a geração com acurácia e que a escrita já foi considerada uma muleta de valor intrínseco a alguns povos, diante da elevada técnica oral e mnemônica. É possível que não apenas as mentes de nossos ancestrais é comparável com as nossas, mas eles podem ter sido até melhores em algumas questões. A maioria de nós nunca desenvolvem completamente suas capacidades de memorizar; como então podemos saber como ou o quê nossos antepassados pensaram sem nos colocarmos no lugar dos mesmos? Por isso, a confiança no conhecimento oral não deve ser deixada de lado ao agregar-se com os registros físicos atuais.

  • Escrito por Sr. Erlav
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2018-08-15T18:35:27+00:00

About the Author:

Renan Lucas é um estudioso e pesquisador do sistema de crenças hindu, especialista no ramo da astrologia indiana, destaca-se no ensino da Astrofilosofia, na Teologia Indiana e na disciplina de Lógica Aplicada à Astrologia. Um dos pioneiros na Astrologia Védica no Brasil.
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